"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. (...)
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na
hora. A tomar o café correndo porque está atrasado.(...)
A deitar cedo e
dormir pesado sem ter vivido o dia.(...)
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone:
hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso
de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que
necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a
ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar
mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a
procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que
pagar nas filas em que se cobra.(...)
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses
pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um
ressentimento ali, uma revolta acolá. (...)
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai
dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. (...)
A gente se
acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta
de tanto acostumar, se perde de si mesma."
Quando você já está acostumada a tudo. A saber o fim das coisas, o fim do dia, o fim do fim de semana e quando uma boa noite de sono é o seu único privilégio.
No momendo em que li essa crônica, preparando aula do ensino médio, foi como ler um texto que eu deveria escrever.
Já me acostumei, mesmo sabendo que não devia. Mesmo sabendo que ainda dá tempo de fazer alguma coisa pra mudar, pra recuperar algo que está perdido. Mas, não... tudo me consome, o tempo, a preocupação, as obrigações e não vou deixar de lado também, a preguiça. E o medo. Óbvio. A incerteza, insegurança.
Era tão decidida. E isso me fez descobrir que meu maior defeito era ter certeza de tudo, e depois mudar de opinião.